Comunicados · Covid-19 · Observatório · Semana 36

Comunicado #2

O tema dos indicadores de saúde não é de fácil compreensão para quem não tem formação de sanitarista, ou seja, especialização em saúde pública ou saúde coletiva. Por isso, e acolhendo sugestões de mães que nos fizeram chegar suas observações, vamos explicar brevemente algumas características dos dois principais indicadores que utilizamos aqui no Observatório.

  1. Taxa de Incidência ou Coeficiente de Incidência

Revela o número de casos novos de alguma doença específica, em um dado território e em certo período de tempo, a cada cem mil habitantes. Seu cálculo é feito tendo como numerador o número de casos novos confirmados da doença, em certo território e em certo espaço de tempo; e como denominador a população suscetível, ou seja, a população exposta àquela doença no mesmo território e espaço de tempo.

Esses números provêm de dois sistemas:

  1. o Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN) que funciona assim: há um elenco de doenças que são classificadas, por leis e outros regulamentos, como de notificação compulsória; quando um serviço de saúde diagnostica (ou suspeita, que vai ser investigada) um caso de alguma dessas doenças preenche um formulário de notificação e o envia à secretaria de saúde municipal ou estadual (em caso de municípios muito pequenos que não têm estrutura de sistema de informação); a Covid-19 é uma destas doenças de notificação obrigatória; o município, no final de uma semana, consolida seus dados e os remete à secretaria de saúde do seu estado; a secretaria do estado também consolida os dados em seu sistema e os remete ao Ministério da Saúde (MS). Depois de tratamento destes dados, o MS os publica no seu Boletim Epidemiológico, em cada semana; estas são numeradas e chamadas de semanas epidemiológicas. Então, não há outra fonte de informação sobre a incidência das doenças de notificação compulsória que não seja o SINAN. Existem ainda os inquéritos sorológicos, mas estes são pesquisas feitas em amostras representativas da população e que permitem saber, com mais precisão, qual o percentual de população afetada pela doença, detectando os casos que escapam ao SINAN, o que é chamado de subnotificação. O resultado da razão entre o numerador e o denominador é multiplicado por cem mil para obtermos a taxa.
  1. o IBGE, por meio das projeções do número de habitantes de cada município ou estado e do Brasil todo; é o número que vai no denominador; e todos sabemos que a população exata muda em cada dia, pois em cada dia morrem pessoas e nascem outras.

Então percebemos que o indicador tem limitantes de precisão tanto no numerador, quanto no denominador.

Quando não é designado o espaço de tempo do indicador (um mês, seis meses, um ano, etc.) subentende-se que se refere a um ano, pois este indicador é usado para informar o número de casos novos em cada ano para compor séries históricas de incidência de cada doença.

É perfeitamente compreensível a observação encaminhada de que a taxa de incidência de Covid-19 (usada em todas as instituições e em todo o mundo), coloca no numerador todos os casos desde o início da pandemia que, no Brasil, foi em março. Então, como os casos não param de ocorrer, a taxa só vai aumentando e a taxa também, o que não permite visualizar se o número de casos novos em cada semana está aumentando ou diminuindo. Para uma avaliação mais fácil da evolução dos casos novos o melhor seria calcular a taxa de incidência em cada semana. Mas isso não costuma ser usado em epidemiologia. Foi por isso que, no último Resumo, colocamos um gráfico de barras com o número de casos novos das últimas quatro semanas. Se subtrairmos o número de uma semana do número da semana seguinte, teremos o número de casos específicos de cada semana. Quando não houver mais nenhum caso novo em uma semana, a taxa de incidência, que usa o total de casos acumulados, vai permanecer a mesma da semana anterior.

Agradecemos também outra sugestão encaminhada e passaremos a mostrar também o número de casos novos de cada semana, para melhor facilidade de visualização.

Então não confundir número de casos novos (incidência), que é um número absoluto, com taxa de incidência, que é um coeficiente, um número proporcional, no caso a cem mil habitantes, mas pode ser por dez mil ou mil, etc.

  1. Taxa de Mortalidade Específica ou Coeficiente de Mortalidade Específica

Revela o número de óbitos causados por uma doença ou agravo (acidente de automóvel, por exemplo), em certo território, em certo espaço de tempo, em cada cem mil habitantes. É calculado pela razão entre o número de óbitos causados por uma doença, em certo território e período de tempo, e o número de habitantes/população do território no período, multiplicada por cem mil.

Estes números provêm de dois sistemas também:

  1. Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), que funciona de maneira semelhante ao SINAN. Sua fonte de dados são os atestados de óbitos emitidos pelos médicos em hospitais, clínicas etc. O atestado de óbito é um documento oficial do SUS que, depois, é levado aos cartórios para a emissão da Certidão de Óbito.
  2. O IBGE, novamente pela projeção do número de habitantes de estados e municípios.

Da mesma forma, temos que prestar atenção e não confundir o número de óbitos, um número absoluto, com a taxa de mortalidade, um número proporcional.

Estes são os principais indicadores epidemiológicos usados para monitorar a evolução da pandemia de Covid-19, pelas instituições oficiais de quase todos os países.

Alertamos, ainda, que o número de casos notificados é altamente dependente da política de testagem adotada em casa país ou estado. Alguns países testam apenas pacientes com necessidade de hospitalização; outros testam os pacientes que apresentam sintomas; e, outros, fazem testagem em massa. Como o coronavírus 2 é um vírus novo, no início da pandemia não havia testes para serem aplicados. A China, onde começou a epidemia, já havia criado seus testes, com o vírus prevalente em seu território. No Brasil, a testagem foi muito pequena nos meses de março, abril e maio. Isso significa muitos casos de Covid-19 e de óbitos por esta doença não foram relacionados a ela. Como os pacientes exibiam um quadro compatível com a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que é uma doença semelhante, mas causada por outros tipos de vírus, os atestados de óbitos traziam a SRAG como a principal causa de morte.

Esta é a causa do que se chama de excesso de mortalidade por SRAG, ou seja, o número de óbitos por SRAG, em 2020, foi muitíssimo superior ao número de óbitos pela mesma doença em 2019 ou 2018. O fato evidencia a baixa quantidade de diagnósticos de Covid-19 nos primeiros meses da pandemia no Brasil, cujos óbitos foram relacionados à SRAG.

Para entender isso um pouco melhor é preciso destacar um conceito muito importante na epidemiologia que o de CASO; o que pode ser considerado um caso. Muitas doenças têm quadro de sinais e sintomas parecidos e a diferenciação se faz com testes laboratoriais e em muitos casos com o próprio quadro clínico. Quando existe o teste específico da doença, o teste laboratorial é exigido para ser definido como caso. Em uma realidade tão diversa e ampla em um território como o Brasil, sempre há exceções e, com o melhor conhecimento sobre o curso da doença Covid-19, que também era uma doença desconhecida, há casos que são confirmados pela clínica.

Att,
Equipe Observatório Moara/Covid-19